segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Grande Guimarães Rosa

" O senhor pense outra vez,repense o bem pensado: (...) a minha vida mudou para uma segunda parte.Amanheci mais."

True!

sábado, 6 de junho de 2009

Lygia Fagundes Telles em "A Disciplina do amor"

Costurar as feridas e amar o inimigo que odiar faz mal ao fígado, isso sem falar no perigo da úlcera, lumbago, pé frio. Amar no geral e no particular e quem sabe nos lances desse xadrez-chinez imprevisível. Ousar o risco. Sem chorar, aprendi bem cedo os versos exemplares, Não chores que a vida é luta renhida.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos”

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Fernando Pessoa

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros,
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que'eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
E tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Trecho de Substância - João Guimarães Rosa

A alumiada surpresa.

Alvava.

Assim; mas era também o exato, grande, o repentino amor – o acima. Sionésio olhou mais, sem fechar o rosto aplicou o coração, abriu bem os olhos. Sorriu para trás. Maria Exita. Socorria-a a linda claridade. Ela – ela! Ele veio para junto. Estendeu também as mãos para o polvilho – solar e estranho: o ato de quebrá-lo era gostoso, parecia um brinquedo de menino. Todos o vissem, nisso, ninguém na dúvida. E seu coração se levantou. __ “Você, Maria, quererá, a gente, nós dois, nunca precisar de se separar? Você, comigo, vem e vai?” Disse, e viu. O polvilho, coisa sem fim. Ela tinha respondido:__ “Vou, demais.” Desatou um sorriso. Ele nem viu. Estavam lado a lado, olhavam para frente. Nem viam a sombra de Nhatiaga, que quieta e calada, lá, no espaço do dia.

Sionésio e Maria Exita – a meios-olhos, perante o refulgir, o todo branco. Acontecia o não-fato, o não-tempo, silêncio em sua imaginação. Só o um-e-outra, um em-si-juntos, o viver em ponto sem parar, coraçãomente: pensamento, pensamor. Alvor. Avançavam, parados, dentro da luz, como se fosse o dia de todos os pássaros.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Embriagai-vos (Charles Baudelaire)

Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais
conta. Para não sentir o horrível fardo do
Tempo que esmaga os vossos ombros e vos
faz pender para a terra, deveis embriagar-vos
sem tréguas.

Mas de que? De vinho, de poesia ou de virtude,
à vossa escolha. Mas embriagai-vos.

E se algumas vezes, nos degraus de um palácio,
na erva verde de uma vala, na solidão baça do
vosso quarto, acordais, já diminuida ou desaparecida
a embriaguez, perguntai ao vento, à vaga, à estrela,
à ave, ao relógio, a tudo o que fogem, a tudo o que
geme, a todo o que rola, a tudo o que canta, a tudo
o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a
vaga, a estrela, a ave, o relógio, vos responderão:
"São horas de vos embriagardes! Para não serdes
os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos
sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude,
à vossa escolha.